segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Lutar contra o TEMPO

Em desespero de causa, finalmente desisto. Não posso cumprir o que não é possível ser cumprido. Primeiro estou eu, depois a escola. Sem um «eu» equilibrado também não havia um «eu na escola». A IC abriu-me os olhos...
Exmª Srª Presidente do Conselho Executivo
Com conhecimento ao Delegado de Grupo


Assunto: Impossibilidade de cumprir as orientações de gestão do programa de Português de 12º ano e o que diz respeito à Circular nº. 14/2005 da DGIDC.


Eu, professora do quadro de nomeação definitiva do oitavo grupo A, actualmente a leccionar o novo programa de Português de décimo segundo ano, venho por este meio informar, que, dadas as alterações definidas para o trabalho a nível de estabelecimento determinarem que apenas tenho 9 horas de trabalho individual nas semanas em que não tenho reuniões, e 7 nas semanas em que as tenho, terei de alterar a planificação e a avaliação instituída no início do ano lectivo.
Assim informo:
1. Uma vez que é absolutamente indispensável a devida preparação de aulas e materiais, sem a qual não seria possível acompanhar os alunos na apreensão dos conteúdos da disciplina e considerando que só a nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário me tem ocupado cerca de dez horas de trabalho não remunerado todos os fins de semana, usando a semana para preparar o desenrolar das aulas, decidi o seguinte:
a) o item «portefólio», que prevê a correcção de trabalhos escritos, produzidos pelos alunos, com o objectivo de treinar a produção escrita, embora crucial para um melhor desempenho a este nível, terá de ser excluído, uma vez que este trabalho comporta uma média de 200 minutos de trabalho por semana, ou seja, mais de 3 horas semanais (dependendo da especificidade de cada tipo de texto entre 5 a 15 minutos de correcção - 1 trabalho de 15 em 15 dias x 40 alunos). Daí que a avaliação, que previa uma percentagem de 15% para este item, venha também a ser alterada.
b) a nova terminologia, à semelhança do que se passa noutras escolas, não será toda trabalhada. Os alunos farão os exercícios como surgem no manual, ou seja, de acordo com uma mistura entre a «velha» e a nova e, sempre que o tempo mo permitir, actualizarei o que está errado (porque não consentâneo com a nova terminologia) no manual. De fora ficará o que este não contém.
2. Devo acrescentar que nunca me escusei a qualquer tipo de trabalho e que tenho dedicado muito mais do que as 35 horas instituídas ao estudo e à preparação de materiais que melhor se adeqúem aos alunos e à correcção de trabalhos seus, para que possam analisar os erros e assim melhor os corrigirem. Também o desenvolvimento do projecto, Português na Net, que ocorre há vários anos, surge agora materializado no horário em forma de projecto, embora a escola não me tenha ainda facultado os instrumentos para aí o trabalhar. Daí que o continue a fazer em casa e use essas horas para preparação de aulas e materiais. Por me sentir avassalada por trabalho e por considerar que acima da profissão e do brio profissional, que sempre me norteou, está a minha saúde mental, sem a qual nem o mínimo poderei render, decidi o que aqui informo, mau grado o constrangimento do dever não cumprido.

5 comentários:

soledade disse...

Não te deixaram alternativa, pois não? Posso imaginar o que isto te terá custado. Mas a situação tornou-se intolerável, não foi? E aguentá-la é sancioná-la.
Admiro a tua frontalidade, a coragem de dizer o preto no branco.
Tens razão: há que definir prioridades; há vida para além da escola.

Amélia disse...

Se todos fossem assim competentes, responsáveis e coerentes, que magnífico seria continuar a trabalhar no ensino!!!Parabéns pela frontalidade e coragem.Já o tenho dito: eu não seria capaz de leccionar Português deste modo...ainda bem que me aposentei a tempo, depois de ter contestado publicamente, desde a fase dos pareceres, a revisão curricular e, sobreudo, a exclusão da literatura dos programas do secundário (aliás na memsa altura abandonei de vez a APP).Bem sei que Ler é actividade altamente SUBVERSIVA.E quem gosta de ler e de fazer ou ajudar a gostar de ler é gente estranha,esquisita, daqueles que no livro de Ray Bradbury -Fahrneit 451, se exilaram para uma ilha dos proscritos amantes de livros... gente porventura maldita e a excluir.Não parece que se queira gente culta - mas cordeirinhos acéfalos.Como disse de forma lapidar G.Steiner, «hoje a nossa escolaridade é uma amnésia planificada»-E não falava de Portugal, mas do Ocidente, pelo menos.E não +e a TV a única responsável.São aqueles que normal,+mente designamos de «Eles»...os que mandam ou são mandados por lobbies e outros conluios globalizantes.
Informe da reacção dos seus colegas e do Presidente do C.Executivo da sua escola.Um abraço,amiga.Gosto de gente assim.

emn disse...

É verdade, Soledade... cansei-me.
Não se pode alinhar nesta dos 'profes que não fazem nada'. Vou cumprir apenas o que me é possível dentro dos limites da minha sanidade mental. Ontem fui ao ginásio (desde Setembro que lá não punha os pés)... Que bem me soube! Os alunos manifestaram alguma tristeza pela interrupção do trabalho para o portefólio... mas NÃO DÁ! Já chega de me esforçar para um 'patrão' que não me dá qq valor e se dá ao desplante de me insultar e dizer que preciso de 'trabalhar mais horas'.



Amélia, os colegas que já viram a carta, subscreveram-na e manifestaram intenção de tb elaborar uma a dar conta das suas dificuldades. O executivo ainda não se pronunciou... se calhar nada irá dizer. Que poderia dizer? Só se me tirasse as horas que passo na escola na componente não lectiva, em que o trabalho rende metade do que em casa, é que eu teria tempo para o realmente importante- o trabalho com os alunos.

soledade disse...

Antes dos novos programas e da terminologia, antes da permanência obrigatória na escola, já trabalhávamos muito, alguns de nós, mas tínhamos maior controle sobre a gestão temporal e havia mais rentabilidade no trabalho. Creio também que outros profs não têm às vezes ideia do que significa corrigir, tendo em vista o melhoramento dos textos, as composições escritas de alunos, o tempo, o grau de concentração que isso pede.
E este ano, além disso, é o trabalho sem sentido: "picar ponto", encher chouriços. Isso custa.
Cuida bem de ti. Fico contente de saber que foste ao ginásio. Ainda te lembravas do que isso era? :)

emn disse...

:)))
ao cansaço emocional e mental acresce agora o físico... Mas este sabe tãããoooo beeeem.....