Mostrando postagens com marcador TLEBS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TLEBS. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de abril de 2007

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

PARA QUANDO?

«O trabalho de revisão já está neste momento a avançar (...) e o trabalho deverá decorrer até ao final deste ano lectivo, o que quer dizer que a suspensão far-se-á brevemente com a publicação de uma portaria a ser publicada até ao final do mês de Fevereiro e teremos durante o próximo ano condições para preparar a experiência pedagógica TLEBS já revista do ponto de vista cientifico e pedagógico», disse à Lusa Jorge Pedreira.

O secretário de Estado acrescentou que para ser possível a aplicação da TLEBS durante o próximo ano lectivo, o processo de revisão científica deverá decorrer até Junho.

Envolta em polémica, a nova terminologia, aprovada pelo Ministério da Educação em 2004, começou este ano a ser leccionada de forma generalizada no 3º, 5º e 7º anos, estando previsto que abrangesse todo o sistema de ensino em 2009.

Para já, o objectivo mantém-se, mas Jorge Pedreira admite que o cumprimento desta meta possa ter ficado comprometido com a suspensão hoje anunciada do processo.

A nova terminologia foi alvo de fortes críticas por parte de encarregados de educação e professores de linguística e literatura, que contestam a complexidade dos novos conceitos, tendo hoje sido entregue no Parlamento uma petição com mais de oito mil assinaturas.

A título de exemplo, a Confederação Nacional das Associações de Pais apontou casos de palavras como «paciência», actualmente classificada como «nome comum abstracto» e que passa a designar-se por «nome não contável e não massivo», ou «peixe-espada», que passa de «palavra composta por justaposição» a «composto morfo-sintáctico coordenado».

sábado, 3 de fevereiro de 2007

APP ea TLEBS

http://educacaocor-de-rosa.blogspot.com/2007/02/carta-da-app.html

Mais TLEBS

Caro professor de Português



Vasco Graça Moura
Escritor

Se perguntar alguma coisa ao Ministério da Educação quanto à vigência ou não vigência da TLEBS, de certeza que ninguém lhe dará uma resposta concreta... Está-se perante uma perniciosa pescadinha de rabo na boca. A TLEBS está em vigor, não estando. Ou não está em vigor, estando. Ontem, ia ser suspensa. Hoje, parece que só vai ser suspensa para o próximo ano lectivo e se pretende aplicá-la no que resta do ano corrente, não obstante as suas muitas e reconhecidas deficiências.

Simplesmente, esta aplicação, intercalar e provisória, não faz qualquer sentido, uma vez que não se trata apenas das falhas científicas de que a TLEBS enferma, mas também da impossibilidade prática de ensinar com base nela, mesmo com a melhor das boas vontades.

Por isso, é impossível considerar que exista uma obrigação de aplicá-la. O próprio ministério o reconhece, uma vez que já a suspendeu quanto aos manuais do 8.º ano, anuncia a intenção de suspendê-la globalmente para 2007/2008 e pretende seja efectuada uma revisão científica.

Mas... de que revisão estaremos a falar? No seu já célebre texto da Internet (http/jperes.no.sapo.pt), João de Andrade Peres escreve que "a discussão em torno da TLEBS só terá a ganhar se for claro e pacífico que é em primeiro lugar aos fonólogos, aos morfólogos, aos sintaxistas (...), aos semânticos, aos dialectólogos, aos historiadores da língua e a outros profissionais da Língua academicamente credenciados (...) que cabe a tarefa de analisar e discutir a validade científica de um produto que é eminentemente linguístico e, mais concretamente, gramatical", para além das questões emergentes de outros planos de análise, que requererão outros contributos.

Ora o ministério, que ainda não se apercebeu da extensão e da profundidade deste problema, limitou-se a incumbir duas pessoas desse trabalho, sendo altamente discutível e deontologicamente inaceitável a intervenção de uma delas por previsível conflito de interesses (marido de uma das autoras da TLEBS e consultor científico de uma gramática para o 3.º ciclo do básico e secundário, conforme à terminologia e publicada por uma editora comercial, a Lisboa Editora).

De tudo isto resulta que a TLEBS não está, nem estará tão cedo, em condições de ser utilizada: citando ainda o artigo referido, ela não conta com uma boa gramática de Português em que possa apoiar-se, é insensata pela sua extensão, apresenta um número impressionante de deficiências metodológicas, de erros de formulação e de erros conceptuais, pretendendo-se introduzi-la abruptamente e com total desprezo pela coesão intergeracional. Sem contar as discrepâncias e descoordenações entre o elenco terminológico constante da Portaria 1488/2004 e o material fornecido pela base de dados (esta, não fazendo parte da portaria, não tem aliás qualquer valor cominativo...).

Ora o meu caro professor não pode ser obrigado a ensinar o erro. E ainda menos pode ser obrigado a ensinar aquilo que não consegue entender, apesar da sua qualificação académica, de ter recebido formação para ser professor, de não ser intelectualmente destituído e de ter com certeza uma válida experiência do seu trabalho. O ministério, aliás, tem conhecimento da sua justificadíssima reacção negativa por um relatório de Setembro de 2006, em que se conclui pela rejeição generalizada da terminologia por parte dos docentes.

Por isso, venho apelar ao seu sentido de responsabilidade cívica, cultural e profissional. Recuse-se a aplicar a TLEBS! Nem sequer se tratará de desobediência civil que, aliás, sempre se justificaria, atentos o imperativo de defesa da nossa língua e as demais circunstâncias.

E também não se pode falar aqui de respeito da legalidade: Andrade Peres já demonstrou que os programas são ilegais porque violaram legislação vigente à data da sua homologação, atribuindo valor legal a um simples documento de trabalho, além de que a homologação dos programas do secundário não está publicada no jornal oficial.

No vazio instaurado, a si, caro professor, o que lhe resta é ir ensinando, provisoriamente, com base na Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 e na Gramática de Celso Cunha e Lindley-Cintra. Não serão perfeitas nem inteiramente satisfatórias, mas pelo menos não bloqueiam as suas possibilidades de se assumir a sério como professor de Português.

Até a TLEBS ser objecto de uma revisão decente, só resta um caminho: se o ministério se obstina em não repor a vigência da Nomenclatura, reponhamo-la nós!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

sábado, 27 de janeiro de 2007

Hã?!

Nova terminologia linguística só será suspensa no próximo ano lectivo 26.01.2007 - 19h21 Lusa

O secretário de Estado Adjunto da Educação, Jorge Pedreira, precisou hoje que a experiência pedagógica associada à nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS) só será suspensa no próximo ano lectivo.
O responsável esclareceu que a portaria que será publicada no próximo mês só terá efeitos práticos em 2007/2008, ano lectivo em que, mesmo assim, "não vai realizar-se a experiência pedagógica com os alunos, já que não há condições técnicas para isso".
Ontem, o secretário de Estado tinha afirmado à agência Lusa que em Fevereiro seria emitida "uma nova portaria a suspender a experiência pedagógica da TLEBS", sem referir que a suspensão só entraria em vigor no próximo ano lectivo.
Segundo o primeiro subscritor da petição que reuniu mais de oito mil assinaturas contra a aplicação nas escolas dos novos termos gramaticais, o mesmo terá dito Jorge Pedreira na reunião que ontem realizou com os responsáveis daquela iniciativa. "O secretário de Estado garantiu-me que iam parar a experiência já este ano lectivo, através de uma portaria que vai sair dentro de poucos dias", disse José Nunes, autor da petição que será discutida no Parlamento.
No entanto, o governante esclareceu hoje que "este ano [lectivo], tudo se mantém na mesma" relativamente à experiência que tem estado a decorrer nas escolas. "A portaria é publicada em Fevereiro, mas a suspensão da experiência pedagógica só tem efeitos no próximo ano lectivo", afirmou.
Deste modo, o Ministério da Educação assegura não existir qualquer contradição entre Jorge Pedreira e o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, que na semana passada afirmou ao “Diário de Notícias” que "seria pouco responsável, a meio do ano lectivo" suspender a referida experiência.
Além de precisar a data de entrada em vigor da suspensão, Jorge Pedreira esclareceu igualmente que o trabalho de revisão científica e adaptação pedagógica não estará concluído em Maio, como afirmou ontem, mas apenas no início do próximo ano lectivo, o que inviabiliza a realização de qualquer experiência em 2007/2008, mesmo que num "grupo restrito de escolas".

domingo, 21 de janeiro de 2007

TLEBS

Mais importantes desenvolvimentos no Nocturno com Gatos.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Aleluia?

Será que partiu mesmo desta preocupação? Ou surgiu exactamente porque se «ouviu» a polémica em torno da TLEBS?
Parece-me que aquando da reformulação dos programas o «barulho» foi pouco...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

???


Tutela diz que experiência da TLEBS se mantém


Bárbara Wong



Escolas escolhem modo como desenvolvem aplicação. Subscritor da petição contra a terminologia contesta



A generalização da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário foi ou não suspensa? A pergunta é da Associação dos Professores de Português e do primeiro subscritor da petição contra a efectivação desta experiência pedagógica, José Nunes.


A questão surge depois das declarações do director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (ME), Luís Capucha, em entrevista ao PÚBLICO no sábado passado, em que anunciou que a tutela suspendeu a generalização da aplicação da terminologia (TLEBS) e que esta só será generalizada em 2008/2009. A terminologia tem como objectivo uniformizar os termos gramaticais. Luís Capucha anunciou ainda que o ME criou dois grupos de trabalho, um que será responsável pela correcção da lista de termos e outro que vai aplicar a nova lista aos vários ciclos de ensino.


Quer Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação dos Professores de Português (APP), quer José Nunes questionaram o ME sobre esta questão. A resposta foi: "A generalização está suspensa, mas a experimentação generalizada mantém-se." "O que é que isto quer dizer?", perguntam.


O director-geral explica: "A experiência pedagógica continua e é feita ao ritmo das escolas, quando a TLEBS for aplicada de forma generalizada, então todas as escolas terão de a aplicar."
O quê? Desculpe. Importa-se de repetir? Repare-se neste documento onde se lê: ponto 5. o departamento curricular decide; ponto 6. sai nos exames. Afinal decide o quê? Se há-de ensinar ou não o que vai sair nos exames?

Em Setembro, as escolas receberam um documento de orientação onde era dito que podiam escolher a modalidade e os prazos para fazer a experiência pedagógica, ou seja, para experimentar a TLEBS. "Em princípio todas as escolas devem fazer esta experimentação", explica o director-geral.


Quanto à obrigatoriedade de aplicar a nova terminologia, a chamada generalização, será apenas em 2008/2009, mas só depois de todos os professores de Português fazerem formação e de haver materiais didácticos disponíveis. Portanto, "a experiência pode prolongar-se por mais um ano e a generalização ser adiada", acrescenta.


José Nunes "presume" que a TLEBS possa ser inconstitucional, porque tem erros científicos, reconhecidos pela tutela, o que viola a garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar, uma vez que os alunos estão a aprender com erros. "Esta é uma geração que é carne para canhão, que está em desigualdade comparativamente às gerações antes e pós TLEBS", lamenta. "O caso é muito sério e pode prefigurar, a partir de agora, um dano causado pelo Estado, de forma reiterada, contínua e consciente, sobre menores de idade, sobre os nossos filhos", conclui.



Público,10.01.2007

Evasivas


TLEBS: as seis evasivas

Vasco Graça Moura



Luís Capucha, director-geral do Ministério da Educação, deu uma entrevista sobre a TLEBS [Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário] publicada no Público de 06.01.2007.
A novidade de monta é a de a generalização da terminologia a todo o ensino básico e secundário ter sido suspensa.
No entanto, pelo art. 4.º da Portaria n.º 1147/2005, de 8 de Novembro (do actual Governo), a aplicação da experiência pedagógica da TLEBS foi generalizada ao universo das escolas do ensino básico no corrente ano lectivo.
E, pelo art. 7.º do mesmo diploma mantêm-se em vigor os preceitos da Portaria 1488/2004 (que aprova a TLEBS) relativamente ao secundário.
Onde está a agora portaria que determina a suspensão? Se não existe, está-se, não perante um progresso na matéria, mas perante uma evasiva destinada a iludir a opinião pública...
Outra evasiva resulta desta eufemística passagem: "Provavelmente não teria feito sentido que o anterior Governo a tivesse aprovado." De acordo. Mas é preciso saber quem induziu o anterior Governo a fazê-lo. E só podem ter sido os serviços do Ministério. Os mesmos que também induziram este Governo a aprovar a Portaria 1147/2005, em plena concordância com o teor da TLEBS, o que continua sem fazer sentido… E continua sem se saber quem é que, no Ministério, patrocinou junto de um Governo a adopção da medida e, junto de outro, a sua manutenção e, agora, pelos vistos, a sua suspensão. Volto a perguntar: o Ministério faz esta tristérrima figura e não acontece nada aos serviços responsáveis por isso?
A terceira evasiva, porventura a mais delirante, está em se imputar à "forte componente de ensino de textos de literatura" o insucesso escolar e a iliteracia: pretende-se justificar a TLEBS como panaceia, em vez de se considerar que há uma desordenada componente de textos e autores organizada sem qualquer critério cultural ou pedagógico digno desse nome. Sem falar das omissões escandalosas…
A quarta evasiva está no expediente da revisão. Somos informados de que os profs. João Costa e Vítor Aguiar e Silva foram incumbidos da correcção das deficiências. Isto significa que o Ministério reconhece ter começado por forçar a aplicação de um instrumento que tem muitas deficiências (aliás, também se reconhece que "não há ainda formação de professores que seja passível de sustentar a introdução da TLEBS"). Ou seja, nos últimos dois anos, o Ministério tem andado a gozar com toda a gente, professores, alunos, responsáveis pela educação, cidadãos em geral!
Aguiar e Silva é uma das mais conceituadas e isentas figuras da nossa Universidade, não da área da Linguística, mas da área da Literatura. Não é de questionar, antes é de saudar a sua intervenção.
Mas João Costa só tomou posições públicas em defesa da TLEBS (Visão, de 16.11.2006; Público, de 15.11.2006). Considera que não houve nela a assunção de um modelo teórico específico (Visão), mas deixa entrever que há uma remissão para a gramática chomskyana (Público). Entende que a TLEBS não revoga os programas vigentes, mas ignora a Circular n.º 3/2005 do Ministério, que informa terem os termos adoptados sido "observados na elaboração dos Programas homologados de língua materna e de línguas estrangeiras na Revisão Curricular do Ensino Secundário", e a Circular n.º 14/2005 cujo ponto 2.1 diz que ela "não se sobrepõe aos programas vigentes, mas actualiza-os", isto é, interfere neles, alterando-os…
Na estrutura criada há um patente desequilíbrio quanto à presença de orientações científicas diferentes. O único linguista que dela faz parte acabará por se reconduzir à figura do juiz em causa própria. Impunha-se a presença de, pelo menos, um dos catedráticos altamente qualificados que deram a cara contra a TLEBS, apontando-lhe publicamente os vícios inumeráveis e os erros calamitosos (o que João Costa não fez, antes silenciou). Refiro-me evidentemente a João de Andrade Peres e Jorge Morais Barbosa.
A quinta evasiva está em se afirmar que o trabalho de correcção, "depois de concluído, vai ser debatido e só depois haverá homologação". Se é assim, mais uma razão para a suspensão da TLEBS ser decretada por portaria que dissipe de vez todas e quaisquer dúvidas.
A sexta evasiva respeita aos editores de materiais escolares. Não foram desmentidas as declarações de Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora e da APEL, ao DN de 23.11.2006, segundo as quais o Ministério contactou os editores e induziu-os a seguirem as recomendações no sentido da generalização aos 3.º, 5.º e 7.º anos. Diz-se agora que "se as editoras fizeram manuais antes da revisão científica final, provavelmente haverá ajustamentos a fazer". O Ministério não pode escamotear a sua responsabilidade nos termos prenunciados por esta dúbia tomada de posição.
Infelizmente, tudo parece indicar que nem mesmo no tocante ao ensino da língua o Estado pode ser considerado uma pessoa de bem...

DN de 10.01.07

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

E continua...

Excertos de «ELEMENTOS PARA UMA CRÍTICA CIENTÍFICA DA TERMINOLOGIA LINGUÍSTICA PARA OS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO (TLEBS)»
de João Manuel de Andrade Peres
Linguista, professor catedrático
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
(...)
Não obstante o que afirmei na secção anterior acerca do papel dos linguistas na avaliação de uma terminologia linguística, é com pena que verifico que, entre as vozes críticas da TLEBS que nos últimos meses surgiram nos jornais e na televisão, estiveram muito poucos linguistas (tanto quanto me apercebi, apenas Jorge Morais Barbosa, catedrático da Universidade de Coimbra). Este facto perturba- me, pois dele resulta a imagem ilusória de que estamos todos a cerrar fileiras em defesa da Terminologia. Sei que isto não é verdade e reputo importante que o país o saiba. Por isso avanço agora com esta posição pública, apesar de me ser penoso pôr em causa o trabalho de colegas e possivelmente magoá- los, de tal modo que por muito tempo protelei a iniciativa e pelo menos três vezes contactei uma das autoras da TLEBS, responsável por algumas das partes que considero mais problemáticas. A primeira reacção desta Colega de departamento foi de surpresa e alguma displicência, mas, num segundo momento, informou-me de que se previa uma revisão para Setembro passado e alertou-me para que uma intervenção pública da minha parte poderia pôr em causa o trabalho de muitos anos de linguistas em prol do ensino da gramática. Setembro passou, estamos em Dezembro e nada vi ou me foi dito até hoje que justifique a manutenção do silêncio.
À circunstância que acabo de expor acresce o facto de o público estar a receber uma imagem dos linguistas que quase faz deles um bando de incompetentes malfeitores que teria por objectivo torturar professores e alunos e pôr de rastos o ensino do português.
Não conheço nenhum linguista a quem assente bem esta (minha) descrição hiperbólica, mas entendo perfeitamente que alguns de nós sejam acusados de ter agido de forma pouco profissional.
(...)
Tenho plena consciência de que, ao intervir, poderei afectar o prestígio de alguns linguistas e reduzir a margem de influência que tenham conquistado. Porém, considero de muito maior monta o prejuízo que esses mesmos linguistas estão, com a TLEBS, a infligir a muitos milhares de crianças e jovens deste país e a alguns milhares de docentes.
Depois de muito instado por antigos alunos que hoje são professores de português, opto, como considero ser de boa norma, pelo mal menor e procedo como quem cumpre um dever cívico. Faço-o na esperança de que mais vozes se ergam, levando o Governo a tomar consciência da gravidade da situação, da qual se constituiu responsável último, ao ter-lhe dado força de lei, não obstante o processo ter sido herdado, praticamente concluído, de governos anteriores (o que é de rigor afirmar, como aliás tem sido feito, mesmo por uma voz insuspeita de preferência política pela actual governação, como é a de Graça Moura).
(...)
A meu ver, a TLEBS não é um objecto inaceitável pelo facto de ser inovadora nos termos (ainda que as inovações possam ser discutíveis), nem por nela se pretender assumir uma postura científica, nem por conter termos de estrutura complexa e difícil de apreender. Não, a TLEBS deve ser rejeitada, antes de mais, porque cientificamente não merece crédito (quod est demonstrandum, obviamente). Adicionalmente, e dado o fim a que se destina a Terminologia, não é também despiciendo o facto de que, mesmo que ela tivesse mérito científico, se tornaria um objecto inútil por não ser servida por materiais de consulta sólidos, nomeadamente uma boa gramática do português de perspectiva inovadora, que não existe. Acresce ainda que a TLEBS é chocante pela sua insensatez no que respeita a extensão, pelo carácter abrupto (direi mesmo brutal) do seu modo de introdução (por oposição a um processo eventualmente faseado ao longo de anos) e pela insensibilidade que revela à importância da coesão inter-geracional, criando rupturas absolutamente inúteis.
Antes de formular as minhas críticas, respondo a uma pergunta que pode surgir no espírito de quem me lê: mas, então, a TLEBS não está já avaliada e creditada cientificamente, uma vez que a sua base de dados de definições foi elaborada exclusivamente por docentes universitários? Lamento responder que não está. Pelo menos por três razões, as duas primeiras das quais espero que fiquem evidenciadas no presente texto: em primeiro lugar, alguns dos autores não são, de modo algum, as pessoas mais qualificadas do país nas suas áreas e estas não foram chamadas a dar o seu contributo crítico sobre o seu trabalho; em segundo lugar, alguns dos autores claramente excederam os limites das suas competências específicas, trabalhando sobre questões de que pouco ou nada entendem; finalmente, por mais elevada que pudesse ser a qualidade do trabalho realizado separadamente por oito entidades distintas (nuns casos, indivíduos, noutros grupos), só por milagre a conjugação dessas peças autónomas no todo da TLEBS poderia ter resultado em algo de coeso e consistente, quando nem uma única vez essas diferentes entidades trabalharam em conjunto para articular a nova terminologia para o ensino do português. Eu sei que é inacreditável esta última afirmação, mas oiça-se o cândido depoimento de uma das autoras, que se pode encontrar no sítio oficial da TLEBS, na secção de “perguntas mais frequentes”: “Na TLEBS há duas definições para Adjectivo, como para Advérbio, Nome e Verbo. Esta duplicação resulta de cada domínio ter sido tratado por um diferente autor e nunca ter sido feito um cruzamento dos dados.” Lê-se e não se acredita. Como é possível que, em tais condições, tenha sido assumida a responsabilidade de fazer chegar a Terminologia ao Diário da República e que ela esteja hoje a ser imposta ao país inteiro? Alguém terá de responder por tamanho absurdo.

(...)
A concluir as minhas notas críticas e avaliativas, lamento dizer que os comentários que aqui expendi (com a ironia que, para mim, quadra bem com tudo o que é tragicómico) mais não representam do que – acentuo bem – uma pálida amostra do muito mais que há para dizer de negativo acerca da TLEBS, nuns casos por manifesta insuficiência ou incorrecção da informação dada, noutros por uma estreita visão do objectivo a atingir, a que faltou um rasgo de coragem para as inovações e as rupturas fundamentadas que se impunham. Apesar disso, eu quero muito não perder mais tempo com a TLEBS, ou, dito de outro modo, não quero gastar mais cera com tão ruim defunto. Só o farei se a isso me sentir obrigado (sans rancune, pois estará a rodear as reais questões quem pensar em conflitos pessoais).
(...)
Quero de novo acentuar que fiquei com a impressão geral de que a TLEBS tem partes que, após revisão cuidada, são de acolher. Tenho pena de que não sejam todas, porque preferiria poder escrever um texto de elogio ao trabalho dos meus colegas, que passaria a usar e a difundir com muito gosto. Porém, perante o que me foi dado observar, não tenho dúvidas em declarar publicamente, com plena convicção e sentido da responsabilidade que assumo, que, independentemente das partes válidas que a TLEBS contém, o conjunto que abrange a Morfologia, as Classes de Palavras, a Sintaxe, a Semântica Lexical e a Semântica Frásica – que constitui precisamente o cerne do sistema linguístico – apresenta deficiências e lacunas de uma gravidade tal que fazem desta terminologia, tomada na sua globalidade, um objecto que não merece crédito científico, que envergonha a Linguística portuguesa e o próprio país e que não se entende como pode estar a ser introduzido no sistema de ensino. Se alguém tivesse como objectivo contribuir para tornar o ensino do português algo de odioso para os alunos, não poderia ter dado melhor ajuda.

(...)
Texto de 30 páginas, onde o autor faz uma análise do discurso hermético da TLEBS, das falhas e incoerências várias que apresenta e comenta as vozes que a têm defendido e atacado. Sem 'partidarices'.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Ainda...


GramáTICa


Análise Sintáctica
por
Filomena Viegas - quarta-feira, 29 Novembro 2006, 01:02

Q:Na frase "Dormi miseravelmente esta noite.", qual a função sintáctica, à luz da nova terminologia, atribuída a "esta noite"?
Carla Pereira Profesora Braga

R:Na frase que apresenta ocorre o verbo intransitivo “dormir”, cuja grelha temática não apresenta argumento interno na predicação. Em “Dormi miseravelmente esta noite.”, o constituinte sublinhado tem a função de modificador do grupo verbal. Esta função sintáctica é desempenhada por constituintes não seleccionados pelo núcleo do grupo sintáctico que modificam. Podemos considerar “esta noite” como modificador preposicional, substituível por “durante esta noite”. Passa-se o mesmo em relação a frases do tipo “Domingo dormirei bem.”, onde “domingo” é igualmente substituível por “no domingo”.

Re: Análise Sintáctica
por
Virgílio Dias - segunda-feira, 4 Dezembro 2006, 08:40


Concordo inteiramente com a análise da Filomena. À luz da TLEBS - e é essa que, agora, nos ilumina - perfeita!
Mas...será que esta noite modifica, realmente, o predicado dormi miseravelmente, ou, antes, lhe acrescenta informação?
Devo confessar que seria para mim muito mais correcta uma descrição que respeitasse a verdade da frase e classificasse esta noite como complemento à informação dada pelo predicado: um complemento não argumental que se chamasse circunstancial, ou suplemento...mas que não fosse, apenas, modificador. Neste caso, modificador fica aquem da necessidade descritiva. Ninguém me convence de que esta noite, nesta frase, modifica seja o que for.
Continuo a pensar que não podemos abdicar do recurso aos complementos circunstanciais. Que inconveniente é que terão visto no seu uso? Teremos que os distinguir dos complementos preposicionados, teremos de diferenciar complementos argumentais de circunstanciais...façamo-lo. Mas é um erro querer eliminar esta ferramenta da descrição gramatical.



Re: Análise Sintáctica
por
Assunção Caldeira Cabral - quarta-feira, 29 Novembro 2006, 12:17

Bom dia, Virgílio, deixe-me meter a minha colherada: a análise da Filomena, «perfeita», não nos pode levar a concluir que "miseravelmente" tem um estatuto diferente de "esta noite". O que ela diz, e estou perfeitamente de acordo, é que o v. DORMIR, núcleo do predicado, não selecciona qualquer complemento e que, portanto, quer "miseravelmente", quer "esta noite" são modificadores do grupo verbal o qual, na frase em apreço, é constituído apenas pelo seu núcleo ("dormi"). Ambas as expressões têm o mesmo estatuto.Do ponto de vista da «sintaxe tlébica», o critério a aplicar em primeiro lugar é o da estrutura argumental do verbo porque é aí que se gera a gramaticalidade/agramaticalidade da frase. Os restantes constituintes são opcionais. Quando realizados sintacticamente alteram, naturalmente, o valor semântico da estrutura frásica, o qual pode/deve ser estudado à luz da semântica frásica (subdomínio B6). Daí o considerar-se que a função sintáctica desempenhada por qualquer dos constituintes não seleccionados pelo núcleo do grupo sintáctico é a de modificador. No documento TLEBS, na entrada MODIFICADOR, há uma chamada de atenção que esclarece as diferenças terminológicas: «Na tradição gramatical, os modificadores também se denominam adjuntos ou circunstantes.»Esta é a minha maneira de ver as coisas. Foi bom ter insistido na ideia dos complementos circunstanciais. Um abraço. Assunção



Re: Análise Sintáctica
por
Virgílio Dias - quinta-feira, 30 Novembro 2006, 09:43

Dormi miseravelmente esta noite
O predicado desta frase é dormi miseravelmente.
O verbo dormir poderá, eventualmente, ter usos de valor absoluto. Tentemos, no entanto, construir frases em que coloquemos aquele verbo como predicado, e veremos que, habitualmente, se trata de um verbo de dois lugares:
João dorme muito, pouco, bem, mal, na casa dos pais - ou: dorme tranquilo, agitado...
O constituinte esta noite, nesta frase, é, estrutural e funcionalmente, diferente do advérbio adjunto miseravelmente que, sintacticamente, é um modificador.
Há uma estratégia, a que recorro, em casos de dúvida: verificar se um constituinte é coordenável com um outro de que eu conheça claramente a função. Se o for, ele desempenham a função conhecida. Se o não for, estamos perante uma função diferente.
Nesta frase, miseravelmente e esta noite não são coordenáveis. Logo miseravelmente é um modificador; esta noite é outra coisa.
Mas, se formos tão TLEBISTAS que nos sintamos forçados a uma interpretação dentro dos seus cânones, há uma possibilidade de não ofendermos gravemente a gramática: classificaríamos esta noite como modificador de frase - e, como tal, já não integraria o predicado - como me parece desde a primeira leitura.


Re: Análise Sintáctica
por
Assunção Caldeira Cabral - quinta-feira, 30 Novembro 2006, 15:29

Não posso de maneira nenhuma concordar com a análise que defende mas, como não estou a ser capaz de me fazer entender, sugiro-lhe uma consulta detalhada da Gramática de M.H.Mateus...:
1. Para a determinação do esquema relacional do v. DORMIR: p.300;
2. Para a análise da estrutura interna do grupo verbal: p.409 (11.5.2.);
3. Para o estudo dos adjuntos: p.414 (11.5.3.). Na p.417 há uma síntese desta questão que me parece bastante esclarecedora, nomeadamente em relação aos circunstanciais;
4. Para a apresentação dos advérbios de modo: p.422;
5. Para a distinção entre o estatuto argumental/não argumental dos advérbios: p.425.
Por agora, penso que a leitura destes 5 pontos o deixarão mais esclarecido evitando, assim, perdermos tempo com divagações de um lado e do outro. Se não for o caso, sempre ao dispor.
Assunção
(...)
Re: Análise Sintáctica
por Virgílio Dias - segunda-feira, 4 Dezembro 2006, 08:40
Não imagina a Assunção a graça que eu encontrei no seu conselho: estude! É que muitos amigos, desde pequeno, têm tentado limitar o meu gosto pelo estudo. O meu Prefeito, nos Jesuítas (com quem, durante 9 anos, aprendi gramática e latim), não permitia que eu faltasse aos recreios para estudar; o meu médico limita-me, agora, a 2 horas o estudo diário; também a minha mulher vai tentando desviar-me daquilo que eu mais gosto: estudar.
Por isso, achei imensa graça ao seu conselho: estude! Até que enfim, alguém reconhece a minha necessidade de estudar mais, e mais...porque cada vez tenho a certeza de saber menos. Fico-lhe agradecido.

Fui revisitar todos os pontos que a Assunção me indicou. Nenhum me desviou da minha interpretação: esta noite e miseravelmente são dois constituintes tão diferentes que não lhes pode ser atribuída a mesma classificação sintáctica.
Mas não me limitei a cumprir o seu conselho. Fui ainda reler Los complementos adverbiales temporales. La subordinación temporal do Prof.Luis Garcia Fernandez (Univ.Castilla-La-Mancha) na Gramática Descriptiva de la Lengua Española, pág. 3129 a 3202. E não deixei de voltar a estudar o que nos diz o Prof. Leonardo Gómez Torrego na sua Gramática Didáctica. E sabe o que lhe digo? Fiquei ainda mais convencido do que tenho afirmado: miseravelmente pertence ao predicado; esta noite é outra coisa. Mas não se admire! Já o Prof.Malaca Casteleiro, que foi meu orientador de Mestrado, dizia que eu, nas questões de análise gramatical, sou demasiado teimoso - mas ia acabando por me dar razão. Espero que o mesmo venha a acontecer agora.

Forum GramáTICa

adjectivos?
por Eva Pires - sábado, 18 Novembro 2006, 23:57

Olá...
Queria aproveitar este espaço para colocar a seguinte questão: a que classe de palavras pertencem as palavras destacadas a seguir?

Ele foi o segundo aluno a chegar. Tu foste o primeiro.

Obrigada
Eva




Cara colega
as palavras destacadas na sua questão pertencem à classe dos adjectivos, e à subclasse dos adjectivos numerais. Assim: um, dois, três... são quantificadores numerais, 1º, 2º ... são adjectivos.
Espero ter ajudado
Glória



Re: adjectivos?
por Eva
Olá novamente...
A minha dúvida era em relação à palavra primeiro, por não surgir acompanhada por nenhum nome...
Obrigada pela rápida resposta



Re: adjectivos?
por Filomena

Boa noite Eva,
Venho dar-lhe a minha opinião. Se em vez de Tu foste o primeiro a nossa 2.ª frase fosse Tu foste o último, diríamos que se tratava de nominalização do adjectivo último. Julgo que também neste caso do adjectivo numeral podemos considerar que houve elipse nominal de aluno, apresentando primeiro um comportamento nominal.
FV

sábado, 2 de dezembro de 2006

Tlebs ...

http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006.html

Aos defensores da dita, pergunto o seguinte:

  • Porquê dizer que nas frases 'O rapaz foi a Lisboa', 'O rapaz está em Lisboa' e 'O rapaz estuda em Lisboa' temos respectivamente um complemento preposicional, um predicativo do sujeito e um modificador preposicional?

Isto simplifica?
Não era mais simples dizer que nos três casos tínhamos UM complemento circunstancial de lugar?

Não há dúvida das vantagens de alguns aspectos da Semântica frásica ou da Pragmática, por permitirem uma reflexão sobre o 'texto'. O que não consigo entender é da necessidade de alterar conceitos que estão enraizados e que fazem todo o sentido.
Outro exemplo:
  • 'O primeiro homem foi Adão'. Se 'primeiro' é (agora) um adjectivo e se está colocado à esquerda do nome então é (de acordo com a semântica frásica) não restritivo. Não é restritivo? Claro que é! Porquê colocar os numerais ordinais como adjectivos?

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

TLEBS (de novo)

A garantia foi dada ao DN por Ramos André, adjunto do gabinete da ministra da Educação. Segundo explicou, a decisão depende de um conjunto de factores, desde "os resultados obtidos pelos alunos abrangidos pela TLEBS, em comparação com os restantes", ao conteúdo de "um conjunto de pareceres solicitados a especialistas pelo ministério".
Este responsável adiantou ainda que, mesmo que a generalização venha a ser a opção seguida, esta só poderá ocorrer "quando os professores se sentirem preparados e seguros sobre esta opção". (o verbo está mesmo no futuro??)


As contradições de quem me tutela fazem-me duvidar da minha sanidade. Mas que ‘organização’ é esta que cada vez que se telefona a colocar questões sobre a aplicação da TLEBS a resposta difere de quem se aventura a responder?
Então AGORA ainda está em experimentação? O ano passado massacrei os alunos com ela porque me disseram que era para aplicar. Leia-se o que na altura escrevi: aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.
É ÓBVIO que tem de ser revista, corrigida, pensada ANTES de integrar as práticas. Só quem quer mostrar serviço pode fazer tanto disparate junto.
Os manuais não são desculpa. A larga maioria dos de 7º está cheia de 'erros' (se considerarmos a TLEBS...)
Poupem-me a tanta incongruência!
Valham-nos os cérebros com voz e quem os alertou!

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Está dito!


A autópsia do Tioneu
Vasco Graça Moura Escritor


Num site do Ministério da Educação (http/www.dgidc.minedu.pt/ TLEBS/CDMateriaisDidacticos/ trabalhos/90_Lusiadas _3C.ppt), pode encontrar-se a TLEBS [Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário] aplicada à análise de uma estrofe de Os Lusíadas (II, 12), destinada aos alunos do 9.º ano e qualificada como "corpo linguístico ambíguo". O facto de o ministério ter acolhido o trabalho feito numa escola básica na sua página da rede fala por si.
A estrofe é esta: Aqui os dous companheiros conduzidos / Onde com este engano Baco estava, / Põem em terra os giolhos, e os sentidos / Naquele Deus que o mundo governava. / Os cheiros excelentes, produzidos / Na Pancaia odorífera, queimava / O Tioneu, e assim por derradeiro / O falso Deus adora o verdadeiro.
Depara-se-nos logo o fac-símile de duas páginas do Canto II da edição de 1572, com o terrível azar de não figurar aí a estrofe em questão... São reproduzidas as n.ºs 63 a 68, não se percebe porquê.A análise tem coisas extraordinárias.
Alguns exemplos:
1. Afirma-se que "o nome próprio Deus nos surge em três posições ambíguas. A primeira é naquele Deus que..., "pressupondo a existência de outros, o que o torna comum e lhe retira o carácter de entidade única".
Acontece que o nome Deus surge apenas em duas posições. E se, na terceira, está implícito, não está como nome. Em vez dele está o pronome "o" [verdadeiro].
A expressão "naquele Deus" não o dessingulariza. Não pressupõe, antes exclui a existência de outros. Basta ler. É um mero expediente enfático e métrico.
Não há qualquer ambiguidade. Deus não é contraposto a outros deuses em termos equívocos. Quando muito, ambíguo seria o verbo no imperfeito do indicativo ("governava", em vez de "governa"), por razões de rima, e isto é que devia ser explicado...
Diz-se também que a segunda e terceira posições da dita ambiguidade do nome próprio Deus estariam em "falso Deus" e "verdadeiro [Deus]".
Volta a não haver ambiguidade: um é falso e o outro é verdadeiro... Aliás, se ambiguidade houvesse, haveria que explicar, em termos empsonianos, que a incerteza ou sobreposição de sentidos funcionaria como recurso de intensificação do efeito poético e da ironia.
2. Pancaia é o nome de uma ilha utópica no Oceano Índico, imaginada por Evémero de Messina (séc. III a. C.). Havia nela árvores de incenso e outras essências vegetais próprias para rituais religiosos. Daí, "os cheiros excelentes, produzidos na Pancaia odorífera" e queimados por Baco. Mas lemos: "o nome próprio Pancaia assume também valor de nome comum devido à presença do determinante demonstrativo '...aquela', constituindo assim uma perífrase de 'Ilha'".
Isto continua a ser puro dislate. Mas o mais bizarro é que o tal determinante demonstrativo "aquela" com tão mágicas e sofisticadas propriedades, NÃO SE ENCONTRA na estrofe analisada!!! É forjado para fins da análise e isto é verdadeiramente grave... E mais grave ainda é o ministério avalizar esta enormidade!
3. Mas há outras coisas pungentes. Noções reaccionárias como sujeito, predicado, complemento directo, complementos circunstanciais, dão lugar a embrulhadas rebarbativas que, do ponto de vista da aprendizagem dos jovens, não adiantam absolutamente nada.
Basta ver como os complementos "...em terra" e "... os giolhos" são descritos. Para o primeiro, temos: "núcleo de um complemento preposicional em posição pós-verbal, constituindo uma unidade sintáctica que serve de locativo à forma verbal põem" e, para o segundo: "núcleo de um grupo nominal que constitui o complemento directo da expressão predicativa anterior". Por sua vez, "... e os sentidos naquele Deus que..." é explicado como "núcleo de um grupo nominal equivalente ao anterior, regido pela conjunção copulativa e que o transforma em complemento directo da expressão predicativa formada pela forma verbal põem".
4. "... produzidos na Pancaia odorífera..." é apresentado como "núcleo de um complemento preposicional seleccionado pela forma verbal 'produzidos' como argumento indispensável". O que é que um aluno vai compreender quanto ao argumento indispensável? De resto, pôr os joelhos em terra e produzir na Pancaia é assim tão diferente? Na Pancaia já não serve de locativo à forma verbal produzidos?
5. "... os cheiros excelentes" acarretam o odor evanescente de um "núcleo de um grupo nominal com função de complemento directo e um Modificador adjectival, em posição de atributo"...
6. "... com este engano Baco estava..." explica-se como "verbo copulativo aqui a assumir um valor absoluto ao dispensar o nome predicativo do sujeito - predicado de uma unidade de hierarquização também secundária". Como é que os alunos vão entender que, muito simplesmente, aquele "Baco estava" quer dizer "Baco encontrava-se ali"?
7. "... e assim por derradeiro, o falso Deus adora o verdadeiro" dá lugar a esta trapalhada: "Predicado da frase que constitui uma oração coordenada copulativa/conclusiva (ligada à anterior pela locução conjuncional e e o conector de valor conclusivo assim)". Parece que toda a frase é o "predicado da frase"…E o que será pegar em todos os dicionários e onde, na entrada "assim", vem indicado advérbio, alterá-los para se incluir "conector de valor conclusivo"?
8. "Por derradeiro" implica a seguinte explicação deveras transparente: "complemento preposicional aparentemente modificador do sujeito 'falso Deus' no que constituiria uma oração subordinada causal. Na verdade, no contexto, a expressão indica 'Por fim; finalmente' e reforça o valor conclusivo dos elementos anteriores". Quer dizer: formula-se uma hipótese desnecessária, antes de se dar a informação correcta...
Disto se vê como até os professores se enredam nas suas próprias confusões. Escapa à minha obtusidade como é que miúdos de 14 ou 15 anos, ainda por cima mal preparados, vão perceber tudo isto e muito mais nos 45 minutos que são expressamente indicados para a análise em questão. Não lhes chegará todo um ano lectivo à roda desta oitava camoniana!
Com a TLEBS, descobriu-se a maneira de reduzir o estudo de Os Lusíadas no 9.º ano a uma só estrofe das 1102 do poema. Coitado do Tioneu!
O ódio à Literatura atinge o seu paroxismo nestes modelos de autópsia.
Acuso deste crime o Ministério de Educação.

In DN de 22.11.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

ECD e TLEBS

Nova proposta de ECD.

Ao primeiro concurso de titular já só podem concorrer os do 10º.
Os do 8º e 9º já só concorrem se ainda houver lugares...

As horas da noite voltaram a ser contadas pelo factor que eram.

Já posso acompanhar as minhas filhas (mais de 10 anos).


Agora, graças à Pragmática Linguística da TLEBS, posso detectar um erro de coesão nesta «anáfora» que não tem antecedente. A expressão «nas quais» surge incoerente, pois não existe referente para ela... Ou seja, a cadeia de referência não existe.

Também, agora, posso apontar um erro de acentuação, que transforma um adjectivo num verbo, retirando ao texto a necessária coesão.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

domingo, 29 de janeiro de 2006

Nova terminologia MXVI

Mais uma descoberta caricata, nestes sábados de estudo e preparação da nova terminologia:

Nos exemplos de exercícios apresentados pelo Ministério, surge a questão:
O antecedente do pronome relativo «cuja» (l. 12) é «primeiro centro cultural radicado na província».
Mas....
...na nova terminologia, 'cujo (a,s)' deixou de ser pronome relativo e passou a ser quantificador.

Será que quem prepara os exames está ainda tão mal preparado quanto eu?

E prova modelo? Será que surge ainda este ano?